Sui generis, é o mínimo que se pode dizer sobre este filme, mas também não é coisa a que não estejamos já habituados em obras do realizador em causa. Contudo, despertou-me a atenção para uma questão pertinente, e se pertinente na altura em que o filme foi realizado, mais o é agora:
Sem querer revelar muito da história, com vista a não estragar a eventual experiência de quem está a pensar ver, no filme é apresentado um tratamento de choque que eventualmente faria qualquer pessoa nunca cometer um crime na vida. Este é aplicado então ao nosso personagem principal, um criminoso, e apresentado na história como a cura definitiva para os males da sociedade.
As consequências do tratamento são fazer a pessoa em causa, ao sentir náuseas, paralisar em situações de violência e conflito - os males. O indivíduo como que está numa prisão interna, e acaba por ter uma conduta baseada em restrições físicas (daí o mecânico da questão) em vez de se basear em escolhas morais e intrinsecamente pessoais.
Numa altura em que o pânico em massa parece ser o pão nosso de cada dia, estaríamos dispostos a abdicar da escolha individual em prol de uma sociedade mais segura, se um tratamento do género existisse na realidade? Eu espero que não. Penso que a individualidade é um preço demasiado alto a pagar para que nos sintamos um pouco mais seguros. E claro, sem individualidade, o que é que valerá a pena, então, proteger?
Embora estejamos demasiado longe desse cenário na vida real, acontecem coisas actualmente pelo mesmo motivo. Penso que é útil, como exercício, atentar em certos actos governamentais, que normalmente aparecem sob o signo do securitarismo. Uma política que vive dos medos dos eleitores e não dos seus ensejos está, à partida, errada.
O rótulo da segurança é perigoso e pode ser usado para fins muito perversos. Já foi usado como arma eleitoral na maior super potência mundial, isto com frutos para o actual presidente. Neste caso, tem que haver uma luta consciente, pelo menos para que a realidade não se torne uma réplica minimamente aproximada da ficção.
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