Num destes dias, enquanto fazia uma visita guiada pela bela cidade de Antuérpia, passando pelo "turístico" Red Light District, não pude deixar de fazer a minha mente divagar por uma certa questão:
O que me intrigou não foi a forma de ganhar a vida das trabalhadoras locais, mas sim os comportamentos contrastantes dos transeuntes: enquanto eu, como turista, num ambiente estranho e desconfortável, nunca conseguía fazer mais do que olhar de relance para as vitrinas em que o "produto" se encontrava, muitas pessoas locais não deixavam de olhar e examinavam com um olhar critico o que cada uma (ou um, ou entre os extremos!) lhes tinha para oferecer, antes de decidirem ou não dispor de tais serviços. Eu simplesmente não me conseguía abstrair das pessoas por detrás das vitrinas e dos corpos.
Foi um comportamento que não desconhecia, mas foi a primeira vez que atentei no mesmo: olhares completamente desapegados de tudo o resto, apenas na ânsia de algum prazer carnal, olhando para pedaços de carne em montra, um pouco como o cidadão comum quando vai ao supermercado e compra um bife, abstraindo-se da vaca por detrás do mesmo.
Pus-me então a pensar se me poderia julgar melhor pessoa do que alguém que usufruísse desses serviços, como a tradicional moral cristã imposta diz. Quanto a isto, sinto que por muito que se reprove o recurso a prostitutas, quer ele seja por necessidade quer pela maneira de ver as coisas, o simples facto de haver pontos de vista divergentes é indicador de não haver uma verdade absoluta sobre o tópico.
Para mim, mais que os actos em si, o fundamental será a maneira de cada um encarar o assunto: "Será vender o corpo uma actividade como as outras, podendo o recurso a ela ser pensado acriticamente?" "Será que a matriz de valores com os quais somos educados é flexível o suficiente para um dia, quiçá, podermos achar normais e naturais tais actividades?"- Estas são questões às quais não me sinto minimamente qualificado para responder mas, sendo o corpo o instrumento do espírito, não se terá, antes de vender o corpo, "vender" a mente?
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